Um ano após mutirão oftalmológico que deixou pacientes cegos em Campina Grande, vítimas aguardam explicações: 'Queremos justiça'
15/05/2026
(Foto: Reprodução) Hospital de Clínicas de Campina Grande
Artur Lira / TV Paraíba
No dia 15 de maio, há exatamente um ano atrás, mais de 60 pacientes foram submetidos a procedimentos oftalmológicos em um mutirão oftalmológico realizado no Hospital de Clínicas em Campina Grande, Agreste da Paraíba. Depois daquele dia, quase metade dos pacientes sofreu complicações e alguns foram diagnosticados com cegueira irreversível, e aguardam até hoje por explicações.
A contratação para o mutirão foi feita por meio do programa Opera Paraíba, do Governo do Estado. A licitação foi vencida pela Fundação Rubens Dutra Segundo, que repassou a execução para a oftalmologista Naiara Cavalcante Furtado, responsável pelos procedimentos no Hospital de Clínicas. De acordo com o Ministério Público da Paraíba (MPPB), foi a médica quem fez os procedimentos.
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Um ano depois, o inquérito policial que apura os fatos ainda não foi concluído. As consequências do mutirão são sentidas até hoje por pacientes que foram submetidos a aplicação de injeção utilizada para impedir o avanço de doenças oculares.
O programador Márcio Ferreira acompanhou de perto a luta do pai, seu Marinildo Pereira, de 60 anos, um dos pacientes submetidos ao mutirão oftalmológico. Segundo Márcio, o pai contraiu uma bactéria que causou uma infecção gravíssima e, consequentemente, cegueira irreversível em um dos olhos.
"Durante a aplicação ele contraiu uma bactéria e aí essa bactéria evoluiu para uma endoftalmite gravíssima (...) Depois, ele fez um tratamento em João Pessoa numa clínica, eles ficaram de tentar reverter a situação, reverter essa infecção, mas não foi possível que ele reparasse a visão. Mesmo debelando a bactéria que estava dentro do olho, não foi possível fazer com que ele voltasse a enxergar e aí, infelizmente, ele recebeu o lado de cegueira do olho onde houve a aplicação", explicou Márcio.
Marinildo Pereira, um dos pacientes atendidos no mutirão oftalmológico em Campina Grande
Arquivo Pessoal/Márcio Ferreira
Ainda de acordo com Márcio, o tratamento que o pai dele fez depois do mutirão em João Pessoa foi oferecido pela Secretaria de Estado da Saúde (SES). Um ano depois, Marinildo Pereira enxerga com baixa visão apenas por um dos olhos, que já era comprometido.
"Atualmente ele encontra-se apenas enxergando com um dos olhos e mesmo assim ele tem baixa visão porque esse olho que ficou, ele era comprometido já referente a esse tratamento que ele vinha fazendo", disse Márcio.
O programador relata, ainda, que o pai teve acesso ao auxílio doença do INSS porque não conseguia trabalhar, mas o benefício só foi concedido durante três meses.
"Então, ele tem tentado voltar a trabalhar, mas fica bastante limitado dentro da situação que ele se encontra. Então, a gente espera a justiça. A gente espera que as pessoas que causaram isso sejam devidamente condenadas e sejam culpadas por essa negligência", reiterou.
Marinildo Pereira, de 60 anos, foi diagnosticado com cegueira após atendimento em mutirão oftalmológico
Arquivo Pessoal/Márcio Ferreira
A professora Errta Riany também foi atendida no mutirão oftalmológico. O diagnostico atual dela é de visão monocular, ou seja, perda da visão de um dos olhos.
"Ainda sentimos dor. Não é diariamente, mas de vez em quando sinto. E o sentimento maior é de abandono. Estamos sem sem notícias, sem acompanhamento psicológico, sem acolhimento... Sensação de abandono", disse Errta.
Errta disse ainda que precisaria ter retornado para a equipe médica disponibilizada pela SES até o mês de novembro para concluir um procedimento feito após o mutirão, mas até hoje, ela e outros pacientes na mesma situação não foram comunicados sobre o retorno.
"Não fomos comunicados para fazer o retorno para a retirada do óleo de silicone, que foi aplicado ano passado no Hospital Metropolitano, em Santa Rita e era pra ter sido retirado em novembro. O médico disse que era urgente, mas até agora, nada", relatou a professora.
Errta Riany, professora, diz que um dia depois das aplicações, ela acordou com fortes dores nos olhos, sem enxergar, e que no dia do procedimento não apresentou problemas.
TV Paraíba
A paciente disse ainda que concluiu a perícia médica junto ao Instituto de Polícia Científica da Paraíba (IPC), e que segue passando por outros procedimentos oftalmológicos junto à Secretaria Municipal de Saúde de Campina Grande para tratar um glaucoma.
Parte dos pacientes ingressou com ações judiciais contra a Secretaria de Saúde e a Fundação Rubens Dutra Segundo.
O que dizem os envolvidos
Procurada pelo g1, Robson Dutra, dono da Fundação Rubens Dutra, reafirmou em nota que todos os procedimentos de sua responsabilidade foram executados em estrita observância às normas técnicas e sanitárias exigidas pelo Ministério da Saúde.
A nota disse ainda que os elementos técnicos apontam que a origem das infecções decorreu da presença de bactérias aéreas existentes nas dependências do Hospital das Clínicas, e que os representantes da fundação seguem tranquilos quanto à lisura da atuação, confiando plenamente no esclarecimento técnico e jurídico da questão pelas autoridades competentes.
A Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba (SES-PB) informou em nota que os pacientes seguem em acompanhamento por meio da rede oftalmológica credenciada, com avaliações e tratamentos realizados conforme a necessidade de cada caso.
Ainda de acordo com a secretaria, o período inicial de acompanhamento é de um ano, podendo ser ampliado de acordo com a evolução clínica de cada paciente. Sobre a falta do retorno clínico alegada por alguns pacientes, a SES informou que eles foram instruídos a procurar a unidade ou solicitar à regulação, e que não precisam enfrentar filas, ou aguardar.
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