Prefeito de Cabedelo afastado: esquema na prefeitura usava empresas terceirizadas para contratar pessoas ligadas à facção

  • 14/04/2026
(Foto: Reprodução)
Edvaldo Neto é afastado da Prefeitura de Cabedelo O prefeito afastado de Cabedelo, Edvaldo Neto (Avante), que ganhou a eleição suplementar da cidade há dois dias, é suspeito de fazer parte de um esquema que contratava empresas terceirizadas para empregar pessoas ligadas à uma facção criminosa na cidade e colocá-las dentro do poder público para desviar recursos. Edvaldo foi eleito no domingo, mas ocupava a prefeitura de forma interina desde o fim de 2025, após a cassação do então prefeito. O g1 teve acesso à decisão do Tribunal de Justiça da Paraíba que autorizou a operação da Polícia Federal nesta terça-feira (14). A ação investiga um desvio de R$ 270 milhões nesse esquema e o elo do poder público com a facção criminosa. Foram cumpridos mais de 20 mandados de busca e apreensão. De acordo com as investigações, os recursos públicos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados voltavam aos líderes da organização e aos agentes politicos na forma de propina. Até mesmo uma 'folha de pagamento paralela' chegou a ser implantada. O g1 separou as informações descritas na decisão da Justiça mostrando como funcionava o esquema. Veja abaixo. Entenda o esquema Edvaldo Neto (Avante) é apontado pela Justiça da Paraíba como sendo integrante do esquema Reprodução/TV Cabo Branco A decisão foi assinada pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, que descreve que empresas terceirizadas, especialmente a Lemon Terceirização e Serviços Ltda, com sede em Olinda, em Pernambuco, eram o eixo central do esquema estruturado dentro da administração pública de Cabedelo. Segundo o documento, o modelo operava da seguinte forma: a Prefeitura de Cabedelo realizava contratações de serviços terceirizados, como de limpeza em prédios e domicílios, por meio de licitações que são suspeitas de serem fraudadas, ou direcionadas, para garantir que determinadas empresas, como a Lemon, fossem sempre vencedoras. A Justiça aponta que isso ocorria, por exemplo, com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes nessas contratações, mesmo quando apresentavam propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo licitatório. Uma vez que os contratos eram fechados, essas empresas terceirizadas funcionariam como um mecanismo de contratação de pessoas indicadas por uma facção criminosa, identificada como a “Tropa do Amigão”, um braço do Comando Vermelho, na Paraíba. Essas indicações, segundo a investigação, partiam da liderança do grupo criminoso e eram operacionalizadas dentro da administração pública por intermediários e servidores, que recebiam currículos e efetivavam contratações dentro da estrutura das empresas terceirizadas. Na prática, isso teria criado uma espécie de “folha de pagamento paralela”, como é citado pelo documento, na qual recursos públicos pagos às empresas terceirizadas eram desviados, total ou parcialmente, para financiar a organização criminosa e pagar propinas a agentes públicos. O dinheiro circulava por meio de salários inflados desses funcionários terceirizados contratados, pagamentos em espécie e uso de contas de terceiros para dificultar o rastreamento dessas quantias, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro, também conforme a decisão. A Justiça destaca ainda que as empresas terceirizadas atuavam como uma espécie de “hub financeiro” do esquema, permitindo, as seguintes situações: Desvio de verbas públicas; Inserção de integrantes da facção na máquina pública; Redistribuição dos valores ilícitos para políticos e líderes criminosos. Com isso, a estrutura formal da administração municipal, conforme palavras do desembargador, “teria sido convertida em um instrumento logístico e financeiro do crime organizado”. Além disso, a decisão que permitiu a operação da PF, aponta que a manutenção contínua desses contratos acontecia por meio de aditivos e novas licitações, tendo como como objetivo perpetuar o domínio do grupo ligado às terceirizadas. O documento ressalta ainda a ligação entre o núcleo da organização criminosa e o núcleo político do esquema. Um dos nomes citados pelo desembargador é o de Flávio de Lima Monteiro, conhecido por "Fatoka", o chefe da facção criminosa. Ele não foi alvo da operação nesta terça-feira (14) e está na lista dos criminosos mais procurados da Paraíba. Quem fazia o que no esquema, segundo a Justiça De acordo com a decisão judicial, as pessoas elencadas abaixo, tinham os seguintes papéis no esquema criminoso: Edvaldo Neto, prefeito interino: teria mantido e garantido a continuidade do esquema como prefeito, assegurando contratos com a Lemon; Vitor Hugo, ex-prefeito: apontado como articulador inicial do esquema, responsável por firmar o pacto com a facção e estruturar o modelo do esquema; Josenilda Batista dos Santos, atual secretária de administração de Cabedelo: apontada como braço operacional interno da facção; recebia indicações da facção e atuava para fraudar licitações e contratar via terceirizadas. Diego Carvalho Martins, atual procurador-geral do município: procurador que teria dado suporte jurídico ao esquema, com pareceres para favorecer a Lemon nas licitações. Luciano Junior da Silva, dono de empresas: controlador de fato do "hub de empresas" utilizadas pela facção criminosa; estruturava a terceirização como fachada para o esquema. Aldecir Monteiro da Silva: sócio formal da Lemon; assinava contratos e aditivos para dar aparência legal. Rougger Guerra Junior, ex-procurador da Câmara de Cabedelo e secretário de João Pessoa: apontado como “lobista”, facilitava a inserção das empresas do esquema na administração pública. Rita Bernadeth Moura Medeiros: apontada como elo operacional do esquema; fazia a interlocução diária entre empresas e Prefeitura. Claudio Fernandes de Lima Monteiro, policial militar reformado e motorista de Josenilda: apontado como gestor de contrato da Lemon indicado para “blindar” a execução do acordo da prefeitura com a empresa e evitar fiscalização. Cynthia Denize Silva Cordeiro, advogada: apontada como elo jurídico entre o núcleo político do esquema com a facção; Ela era advogada de Fatoka e sogra de Edvaldo Neto, o prefeito. Tanison da Silva Santos: apontado como intermediário da facção; repassava indicações e articulava contratações. Genilton Martins de Brito: apontado como operador financeiro; movimentava e pulverizava recursos desviados. Prefeitura de Cabedelo (Contratos/Licitações): estrutura usada para viabilizar licitações e contratos sob suspeita. Lemon Terceirização e Serviços Ltda: empresa central do esquema; utilizada para desvio de verbas e contratação de indicados da facção. O que dizem os investigados A defesa de Edvaldo Neto informou por meio de nota que "o prefeito jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa, sendo tal imputação absolutamente inverídica e incompatível com sua trajetória pública". Em nota, a defesa do prefeito ressaltou, ainda, que a medida é "de natureza provisória" e "que não implica qualquer juízo definitivo de culpa". O ex-prefeito de Cabedelo Vitor Hugo disse, em nota, que é alvo de perseguição de adversários. Afirmou que respeita as instituições e que nunca teve contato com pessoas ligadas à facção criminosa, que isso "ficará comprovado durante o processo. Rougger Guerra, secretário da Prefeitura de João Pessoa, afirmou que foi surpreendido com a ação da Polícia Federal. “Esclareço, de forma categórica, que não tenho qualquer envolvimento com os fatos investigados, tampouco mantive qualquer relação com as situações apuradas”, disse. Ele afirmou ainda que entregou o cargo na administração da capital. Cynthia Cordeiro, sogra do prefeito afastado e que ocupava uma secretaria na administração municipal, foi procurada e também não respondeu. A Lemon disse que vai se pronunciar sobre o ocorrido. As defesas dos demais alvos da operação não foram localizadas. A decisão e a operação Dinheiro e outros objetos foram apreendidos durante operação da Polícia Federal em Cabedelo Divulgação/Polícia Federal Além do afastamento do prefeito interino de Cabedelo, Edvaldo Neto, o desembargador Ricardo Vital determinou o afastamento das funções públicas da secretária de Administração de Cabedelo, Josenilda Batista dos Santos e de servidores estratégicos, como "medida rigorosa para proteger o patrimônio de Cabedelo e garantir a coleta transparente das provas". O afastamento deve durar até que ainda existam motivos para a medida. A Justiça também proibiu o acesso às dependências da prefeitura das seguintes pessoas: Edvaldo Neto, Vitor Hugo Peixoto Castelliano, Rougger Xavier Guerra Junior, Diego Carvalho Martins, Cynthia Denize Silva Cordeiro, Tanison da Silva Santos e Cláudio Fernandes de Lima Monteiro. Ao todo, foram cumpridos 21 mandados de busca e apreensão. Um dos endereços foi um apartamento do prefeito Edvaldo Neto, localizado em Intermares. A Polícia Federal ainda não detalhou material apreendido. As diligências são executadas em regime de força-tarefa entre a Polícia Federal, o Ministério Público da Paraíba, por intermédio do Gaeco, e a Controladoria-Geral da União. Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba

FONTE: https://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2026/04/14/prefeito-cabedelo-afastado-esquema-pessoas-ligadas-a-faccao-criminosa.ghtml


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