‘Nunca disse que sou médica’, afirma suspeita presa por realizar procedimentos estéticos irregulares, na PB
28/08/2026
(Foto: Reprodução) Presa suspeita de se passar por médica e aplicar silicone de construção em glúteos
Uma mulher foi presa em João Pessoa, na quinta-feira (27), suspeita de se passar por médica especialista em harmonização de glúteos. À TV Cabo Branco, após a prisão, Isabela de Melo Dantas negou que tivesse se apresentado dessa forma às pacientes e afirmou que sempre trabalhou como esteticista.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 PB no WhatsApp
“Nunca disse que sou médica. Nunca. Meu carinho é estética, amo estética, ministro cursos de estética e toda a minha vida fui esteticista. Nunca quis ser médica, não cheguei ainda a esse nível. Sou estudante de Biomedicina”, disse.
A suspeita também afirmou que os procedimentos realizados por ela estavam ligados à área da estética. Sobre a venda de ácido hialurônico, disse que isso acontecia porque a clínica era dela.
“Quando eu vendo o meu ácido hialurônico, é porque a clínica é minha. Eu posso vender cílios, sobrancelhas, unhas, o que abranger a área estética. Quando houvesse ácido e bioestimulador puro, o esteticista pode fazer, né?”, afirmou.
Nas redes sociais, suspeita se apresentava como "doutora" e especialista em harmonização facial e corporal
Reprodução/Instagram
A prisão aconteceu na quinta-feira (27), enquanto a suspeita atendia mais uma paciente. Até a última atualização desta reportagem, seis pacientes haviam registrado denúncias. A prisão foi feita pela Delegacia de Defraudações (DDF), da Polícia Civil.
O g1 não conseguiu localizar a defesa da suspeita até a última atualização desta reportagem.
A Polícia Civil investiga as denúncias e informou que a suspeita pode responder por exercício ilegal da medicina e estelionato. Ela também pode ser responsabilizada pelas irregularidades trabalhistas apontadas por uma ex-funcionária.
Segundo o delegado Bruno Vitor Germano, há indícios de estelionato, uso irregular e fraudulento da medicina e uso de medicações falsas ou fraudulentas. A investigação também envolve possíveis questões de indenização.
“Ela cobrava altos valores, informando que aplicaria ácido hialurônico e bioestimulador de colágeno. Entretanto, a investigação apontou que ela aplicava apenas soro fisiológico e ar. Um procedimento invasivo muito perigoso, que pode inclusive causar risco de morte a suas pacientes. A gente consegue frear essa ação ilícita da Isabela”, disse o delegado.
As investigações apontam que os atendimentos aconteceram em João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba, além de Natal, no Rio Grande do Norte, Recife, em Pernambuco, e Fortaleza, no Ceará.
Antes da prisão, a suspeita atendia em um prédio empresarial localizado na Avenida Epitácio Pessoa, em João Pessoa. Nas redes sociais, ela se apresentava como “Doutora”, “rainha da harmonização glútea”, “referência em harmonização glútea” e “especialista em harmonização corporal e facial”.
“Ela vem desenvolvendo essas ações há vários meses. Mudava sempre de endereço para dificultar a ação policial. Ela tinha uma sala de atendimento em determinada cidade, e a gente começava a investigação e, de repente, ela mudava para outro bairro, até mesmo por conta das reclamações das vítimas”.
Após a prisão, a mulher foi levada para a Cidade da Polícia Civil. O g1 não conseguiu localizar a defesa da suspeita até a última atualização desta reportagem.
O Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB), diante das informações acerca da prisão de pessoa que divulgava e realizava procedimentos estéticos sem possuir habilitação médica, manifesta seu reconhecimento ao trabalho desenvolvido pelas autoridades policiais na apuração do caso e na proteção da população.
Em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB) reforçou que procedimentos estéticos de natureza médica, especialmente os invasivos, que envolvam injeção de substâncias, implantes, anestesia ou outras intervenções, devem ser realizados por médicos devidamente habilitados, em ambiente adequado e com observância das normas sanitárias e de segurança. O CRM-PB ressaltou que falhas nesses procedimentos podem ocasionar complicações graves.
“Por essa razão, antes de se submeter a qualquer procedimento dessa natureza, o cidadão deve verificar a qualificação do profissional, sua habilitação legal e, quando se tratar de médico, sua inscrição regular no Conselho Regional de Medicina”, afirmou a entidade.
As denúncias
Suspeita teria utilizado silicone de construção em pacientes que teve complicações
Reprodução/TV Cabo Branco
Entre as denúncias investigadas estão o uso de ar, soro e até de silicone de construção nos procedimentos. Pacientes também relataram complicações de saúde, incluindo a necessidade de procedimentos cirúrgicos de emergência após as aplicações.
Uma das pacientes foi a influenciadora Mirela Veríssimo. Ela contou à TV Cabo Branco que foi procurada pela suspeita para uma parceria: faria uma harmonização nos glúteos com reposição de colágeno em troca de divulgação.
Mirela afirmou que passou mal durante o procedimento, que, segundo ela, foi realizado sem anestésico. Depois, a região apresentou inchaços e hematomas. Com o passar dos dias, ela percebeu uma mudança no resultado.
“Nos três primeiros dias estava aquele processo inflamatório, estava inchado. Passando de 4 para 5 dias, você já conseguia ver que estava sumindo aquela questão de volume e tudo mais. Só que o resultado final desses dias que passava era pior do que era antes”, relatou.
A influenciadora afirmou que não sabia que a mulher não era médica e disse que a suspeita não mostrava os produtos utilizados durante as aplicações. Mirela registrou um boletim de ocorrência.
Uma ex-funcionária, que não quis ser identificada, também afirmou à TV Cabo Branco que a suspeita dizia ser médica quando era questionada sobre a formação acadêmica. Segundo ela, a mulher dizia ter especialização em estética ou ser auxiliar de bloco cirúrgico.
A ex-funcionária relatou ainda que a suspeita chegou a dizer que estava concluindo o curso de medicina, mas que havia trancado a graduação porque estava em uma matéria de que não gostava.
Nas denúncias às quais o g1 teve acesso, uma das vítimas teve silicone de construção injetado nos glúteos pela suspeita. A mulher teve que passar por procedimentos cirúrgicos de emergência, após ter apresentado complicações de saúde.
Em outras pacientes, a falsa médica aplicava ar e soro fisiológico, mesmo informando que utilizava bioestimulador e ácidos específicos, atitude que foi considerada suspeita por uma que não quis se identificar.
“Ela dizia usar produtos como bioestimulador e um ácido específico para o corpo. E eu vi colocando, na verdade, ar e soro fisiológico na seringa".
A mulher sentiu muitas dores e inchaço, e os resultados prometidos não foram obtidos. Desconfiada, ela se informou com outros profissionais da área sobre a forma como o procedimento foi feito e, após uma pesquisa, tomou conhecimento de que a profissional não tinha nenhuma formação ou especialização que autorizasse a realização de procedimentos como a harmonização de glúteos.
"Foi quando eu comecei a achar muito estranho. Fiz uma pesquisa e vi que ela não tem especialidade nenhuma com relação a fazer procedimentos invasivos, assim como vi também um processo de uma paciente em que ela usou um silicone de material de construção".
Em outra denúncia, a vítima alegou que conheceu a profissional por meio de uma live nas redes sociais. Na transmissão, a suspeita anunciava a realização da harmonização de glúteos por R$ 3,5 mil.
Após realizar o procedimento na clínica, que funcionava no Bairro dos Estados, em João Pessoa, a paciente relatou que pagou R$ 5 mil, valor acima do anunciado. Após a aplicação, ela apresentou muitos hematomas, a região ficou quente e ela chegou a desmaiar de dor.
Vídeos mais assistidos do g1 Paraíba