Caso Rebeca Cristina: após 15 anos, segundo suspeito segue desconhecido: 'não foi feita a justiça completa', diz amiga da estudante
11/07/2026
(Foto: Reprodução) Caso Rebeca Cristina: após 15 anos, segundo suspeito segue desconhecido
A morte da adolescente Rebeca Cristina completou 15 anos neste sábado (11). A estudante foi encontrada morta em uma área de mata em Jacarapé, em João Pessoa, no dia 11 de julho de 2011. Apesar da condenação do ex-padrasto da vítima, o cabo da Polícia Militar Edvaldo Soares da Silva, há uma prova genética que nunca foi atribuída a ninguém. A investigação sustenta que ele não agiu sozinho.
Fotos de Rebeca Cristina estão estampadas em vários locais da casa dos avós, em João Pessoa
Dani Fechine/G1
Para as pessoas próximas a Rebeca, essa lacuna traz a sensação de que a justiça não foi completamente feita. É o caso de Mykaelle Arruda, melhor amiga da adolescente.
“O que adianta ele ser preso, mas o restante não ser? Não foi feita a justiça completa”, afirmou Mykaelle à TV Cabo Branco.
O g1 revisitou o relatório do inquérito da Polícia Civil sobre o caso e conversou com o delegado Glauber Fontes, que presidiu as investigações.
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As investigações
Rebeca Cristina foi encontrada morta no dia 11 de julho de 2011
Reprodução/TV Cabo Branco
A Polícia Civil levou mais de cinco anos para indiciar o principal suspeito. Antes da conclusão do inquérito, a polícia esgotou pelo menos 10 linhas de investigação, segundo o delegado Glauber Fontes, que esteve à frente do caso.
As investigações contaram com o apoio da criminóloga Ilana Casoy, conhecida por atuar em casos de grande repercussão, como os assassinatos do casal Richthofen e da menina Isabella Nardoni.
Apesar da amplitude das investigações e do posterior indiciamento do principal suspeito, pelo menos um segundo envolvido, que chegou a ser considerado pela polícia, nunca foi identificado.
Desaparecimento e morte
Rebeca Cristina Alves Simões, de 15 anos, saiu de casa por volta das 6h50, em Mangabeira VIII, Zona Sul de João Pessoa, para ir ao Colégio da Polícia Militar, localizado no mesmo bairro. Após a estudante não voltar para casa no horário em que costumava retornar da escola, a mãe estranhou a demora. Ao procurar a instituição de ensino, descobriu que a filha sequer havia comparecido às aulas naquele dia. Foi então que as buscas começaram.
“Quando eu senti a falta dela, saí ligando, fiquei procurando. Eu tinha ido à escola para saber, e o diretor ligou para várias pessoas, para vários alunos, e eles diziam: ‘não, Rebeca não veio hoje’, ‘eu não vi Rebeca’, e assim por diante. Aí ele me orientou a ir à delegacia”, relembrou Tereza Cristina.
Naquele mesmo dia, por volta das 14h20, a adolescente foi encontrada morta em um matagal às margens da PB-008, na Mata de Jacarapé. O corpo foi reconhecido por Edvaldo Soares e pelo tio de Rebeca, Joseilton Melquíades da Silva, conhecido como Jó. A mãe de Rebeca lembra o momento em que recebeu a notícia.
“Quando eu cheguei em casa, estava um movimento de pessoas na frente, mas eu estava tão aperriada da cabeça que cheguei e disse: ‘eu vou ter que ir para a delegacia, vim só pegar os documentos’. Aí minha irmã disse: ‘Rebeca foi encontrada, mas está morta’”.
Rebeca Cristina foi encontrada vestindo apenas roupas íntimas e com uma marca de tiro na cabeça. O laudo pericial apontou que a adolescente foi vítima de abuso sexual ainda com vida e que a morte ocorreu entre 8h10 e 12h10 do dia 11 de julho.
Único condenado
Júri popular de Edvaldo Soares da Silva, acusado de ser coautor da morte de Rebeca Cristina
Dani Fechine/G1
O cabo da Polícia Militar Edvaldo Soares, ex-padrasto de Rebeca Cristina, foi o único indiciado e condenado pelo crime. O indiciamento veio somente no ano de 2016, mais de cinco anos depois. Em 2019, ele foi condenado por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa da ofendida, além de estupro qualificado, com uma pena de 31 anos de prisão.
Um exame de DNA descartou a presença de sêmen ou sangue de Edvaldo Soares no corpo de Rebeca Cristina. No entanto, as investigações encontraram pelo menos 22 indícios de envolvimento do policial no crime.
Segundo o relatório do caso, entre os indícios, está o fato de que o cabo se ausentou do posto de trabalho por duas vezes na manhã do dia 11 de julho. Ele, que trabalhava no Presídio do Róger, em João Pessoa, não participou da formação militar das 7h30 e, após ter retornado às 8h10, pediu autorização para sair do presídio, alegando um assunto particular.
Edvaldo retornou entre 10h30 e 11h e, por volta das 11h10, solicitou uma nova saída, afirmando que precisava ajudar a esposa porque a enteada não havia voltado do colégio. Nesse horário, segundo o inquérito policial, a mãe de Rebeca ainda não sabia do desaparecimento da menina.
Outro ponto identificado pelas investigações é que o policial militar tinha histórico de crimes sexuais. Na época, uma vizinha da família disse, em depoimento, que Rebeca Cristina demonstrava incômodo com algumas brincadeiras inadequadas do padrasto.
"Já tem um histórico voltado para essa área de crimes sexuais contra menores, não com resultado morte, mas com conduta semelhante, só não a morte, que só aconteceu no caso de Rebeca", afirmou o delegado Glauber Fontes.
Apesar disso, Edvaldo nunca chegou a confessar o crime, de acordo com o delegado Glauber Fontes.
“Nunca confessou o delito, mas, pelos elementos de prova, pelos elementos que a gente reuniu, não ficou dúvida. Tanto é que o Tribunal do Júri o condenou com a penalidade muito alta por esse crime”.
Durante o júri, ele alegou que estava sendo acusado como "bode expiatório" para "dar satisfação à sociedade" e que nenhum investigador queria continuar com o caso. O réu falou ainda que tratava Rebeca como filha. “Era relação de pai e filha. Eu procurava exercer o papel de provedor do lar”, disse Edvaldo.
Sobre o suposto segundo envolvido, que nunca foi identificado, o delegado relata que em alguns depoimentos, mesmo sem ter confessado formalmente, Edvaldo dava a impressão de que essa pessoa foi executada.
“A impressão que a gente tem, isso é uma impressão nossa de quem lidou, é que a outra pessoa foi executada, a outra pessoa morreu, porque nos depoimentos dele, ele dava a entender que a outra pessoa estava como se fosse inalcançável, entendeu? Mas isso a gente nunca pôde ter a certeza”.
Dias que precederam o crime
Rebeca Cristina, com 15 anos, um dia antes da sua morte, em João Pessoa
Dani Fechine/G1
Segundo o inquérito, na noite anterior ao crime, Rebeca Cristina foi para um culto em uma igreja evangélica. Testemunhas que estiveram na igreja naquela noite relataram que a adolescente chorou muito durante a celebração, mas não contou o motivo a nenhum dos presentes.
A estudante ligou para sua melhor amiga, Mykaelle Arruda, convidando-a para ir à igreja com ela, pois tinha algo muito importante para revelar. No entanto, a amiga estava com dor de cabeça e, por isso, recusou o convite. Aquela foi a última vez que as duas se falaram.
“Ela me ligou querendo que eu fosse muito para a igreja, dizendo: ‘por favor, vem, vem’. E isso me marcou muito até hoje, porque foi a última vez que eu ouvi a voz dela, que eu pude falar com ela”, disse Mykaelle à TV Cabo Branco.
Durante as investigações, pessoas da convivência de Rebeca Cristina afirmaram que, nos dias anteriores, a estudante apresentou mudanças no comportamento: estava mais quieta. Depoimentos de amigos e vizinhos mostraram indícios de que a motivação dessa mudança seria problemas na relação com o padrasto.
Dois amigos, os mais próximos, depuseram que a estudante havia descoberto recentemente mensagens no celular do padrasto que sinalizavam um relacionamento extraconjugal com outro homem. Mesmo desaconselhada pelos amigos, a estudante confrontou o homem, que passou a tentar comprar o silêncio dela com presentes.
Por isso, Mykaelle diz que sempre soube que Edvaldo tinha algum envolvimento com a morte de Rebeca e que ficava incomodada com o padrasto demonstrando luto e interesse na resolução do caso. Não demorou muito para o homem começar a ameaçá-la.
“Era insuportável ver aquela cena, porque eu sabia que tinha sido ele. Eu sabia por conta de tudo que a gente já tinha visto, pelo celular, pelas mensagens. Eu tinha uma raiva muito grande, porque ele ficou sempre do meu lado ali para me pressionar a não contar. Ele vinha muito aqui em casa, me ameaçava, me ameaçava por telefone, me ameaçava pessoalmente”.
Outros investigados
Exames realizados no corpo de Rebeca Cristina apontaram que um material genético foi encontrado na região íntima da vítima. O perfil genético, no entanto, não corresponde ao do homem condenado pelo crime. Segundo Glauber Fontes, delegado responsável pela investigação, mais de 50 pessoas chegaram a ser submetidas a exames de DNA durante as apurações, incluindo o namorado de Rebeca na época do crime, um ex-namorado e funcionários da escola onde a adolescente estudava.
A Polícia Civil investigou pelo menos dez suspeitos. Todos foram posteriormente descartados após a verificação de álibis e de outros indícios que apontaram que eles não tinham envolvimento com o crime.
"A gente traçou mais ou menos umas dez linhas, entre dez e doze, e aí, em cada linha dessa, diversas diligências foram realizadas".
O delegado aponta que uma das dificuldades que os investigadores encontraram foi o fato de o condenado pelo crime, Edvaldo Soares, ser policial e entender como as investigações funcionavam.
"Sendo policial militar, ele conhecia um pouco da dinâmica da investigação e procurou dificultar bastante. Por exemplo, um ponto crucial é que ele fez questão de estar de plantão no dia do crime, e o livro de registro de saída só constava que ele tinha saído às 14h30 da tarde, mas aí, quando a gente foi ouvir todos os policiais militares do turno anterior, a gente constatou que, mesmo sem o registro do livro, ele tinha saído duas vezes antes sem constar no livro, então isso foi crucial para que a gente avançasse".
Sonhos interrompidos
Tereza Cristina, mãe de Rebeca
Reprodução/TV Cabo Branco
A mãe, Tereza Cristina, há 15 anos, precisa conviver diariamente com a dor da saudade da adolescente. "Não tem um dia na minha vida, nesses 15 anos, em que eu não sinta a falta dela. Até em comer um feijão preto, eu me lembro da minha filha, que era o que ela mais gostava”, relatou à TV Cabo Branco.
A mulher ainda guarda fotografias, camisetas e objetos pessoais, como um urso de pelúcia que pertencia à filha, e pensa em como a menina estaria hoje, caso não tivesse tido a vida interrompida de forma tão brutal.
“O sonho dela era ser médica do Samu e veterinária. (...) Às vezes, quando eu paro para pensar em tudo que eu perdi, minha filha não pôde realizar e eu, como mãe, também não pude… Eu não vou poder nunca ver minha filha se formando, levar minha filha ao altar, que ela tinha um sonho de casar, ela pode ter sido mãe também”.
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