'Campina Feita à Mão': artesanato paraibano ganha passarela no Parque do Povo: 'Reconhecimento de toda uma vida'
10/06/2026
(Foto: Reprodução) Desfile de Roupas de Artesanato em Campina Grande
Carol Santos/TV Paraíba
O projeto Campina Feita à Mão levou o artesanato de Campina Grande à passarela nesta quarta-feira (10), durante um desfile realizado na Pirâmide do Parque do Povo. Integrando a programação d’O Maior São João do Mundo, o evento apresentou peças de moda desenvolvidas por artesãos paraibanos e colocou em evidência técnicas tradicionais aplicadas a roupas pensadas para o uso contemporâneo.
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Nesta segunda edição, cerca de 50 modelos desfilaram criações produzidas por 30 artesãos paraibanos. As peças reuniram técnicas como crochê, bordado, macramê, pintura, couro e patchwork. O desfile também contou, pela primeira vez, com a participação da cantora Agnes Nunes.
O coordenador do projeto, estilista e diretor criativo Ary Rodrigues, responsável pela criação dos modelos ao lado de Wellington Jan, explicou que a iniciativa busca colocar os artesãos em evidência.
“O intuito principal é fazer com que os artesãos venham para o holofote, comercializando as suas peças com maior entusiasmo e o resgate também de técnicas que há muito já são utilizadas. A ideia é que a gente não deixe essas técnicas manuais adormecerem”, afirmou.
O estilista explicou que o projeto planta é de longo prazo. A relação com os artesãos continua depois que as luzes da passarela se apagam, e os efeitos disso, segundo ele, já são visíveis.
"Eles começam desenvolvendo um trabalho que já costumam fazer e, a partir do evento, a gente acaba criando uma relação e incentivando eles, não só na valorização do trabalho, mas também no desenvolvimento do processo criativo. E isso a gente tem visto de maneira muito clara. O potencial desses produtos não são só para nossa cidade, mas também global", disse Ary.
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'É um sonho para quem não tem visibilidade'
Desfile aconteceu em Campina Grande
Carol Santos/TV Paraíba
Para a artesã Rita de Cássia Campos, natural de Livramento, no Cariri paraibano, o projeto representou o reconhecimento de uma vida dedicada ao crochê. Ela trabalha com a técnica desde a infância e atualmente utiliza variações como crochê irlandês, tailandês e amigurumi.
“Desde criança eu faço crochê. Aprendi com minha avó que fazia chapéu usando sacolas plásticas. Sou filha de artesão e sou muito curiosa, gosto demais de trabalhos únicos e manuais, porque tenho uma mente inquieta. Vi o edital e logo me inscrevi”, contou.
🔎 Amigurumi é uma técnica japonesa de criar pequenos bonecos tridimensionais de crochê ou tricô.
Rita levou para a passarela duas peças clássicas: um kimono em patchwork e um tailleur. Segundo ela, uma das criações surgiu após assistir a um documentário sobre Coco Chanel, enquanto a outra teve inspiração em um dorama. Ela conta que as referências são suas, mas a oportunidade de desenvolvê-las ao lado de estilistas reconhecidos foi algo que ela nunca havia imaginado para si.
"Essa participação representa o reconhecimento de toda uma vida. Eu, como sou costureira, trabalhar com os estilistas foi uma inspiração. É um sonho para quem não tem visibilidade trabalhar com grandes nomes. Vai ser minha primeira vez na passarela", disse.
Do campo à passarela
A artesã Gecilda Souza, natural de Campina Grande, também vivenciou esse impacto. Há cerca de 20 anos no artesanato, ela desenvolve um trabalho com algodão colorido natural e, há quatro, estruturou o projeto Via Terra Natural, que envolve desde o cultivo até a confecção das peças. Atualmente, cerca de 30 agricultores participam da iniciativa.
“Os agricultores são da cidade de Juazeirinho, aqui no Cariri da Paraíba. A gente traz esse algodão para Campina Grande e transforma em fio e em malha para fazer os produtos de artesanato, todos feitos com algodão colorido natural. São vestidos, bolsas, acessórios, decoração. Tudo é autoral, da plantação ao produto final. É uma técnica familiar”, explicou.
Para o desfile, Gecilda criou um look que resume tudo o que o projeto representa: uma saia rodada com os quatro tons naturais do algodão, bordada com folhas douradas, combinada com blusa e tiara com chumaços de algodão em todos os tons. Cada cor veio do campo — literalmente.
Roupa da Gecilda, no desfile em Campina Grande
Carol Santos/PB
Gecilda conta que o projeto ampliou o alcance do seu trabalho e permitiu vivenciar um processo coletivo de criação, além de destacar a mudança na forma como o artesanato passa a ser percebido.
“Profissionalmente, para mim, é fantástico, porque eu tenho a oportunidade de mostrar o meu trabalho para essas pessoas tão diversificadas. O artesanato antigamente era visto como uma 'coisinha', dar aquela lembrancinha quase insignificante para alguém. Esse desfile só tem a enaltecer o artesanato. O evento vai fazer com que as pessoas vejam o artesanato com outros olhos. Depois do desfile teremos olhares realmente mais calorosos. Usar uma peça do artesanato é ser exclusivo, é ser diferente", contou.
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